A primeira coisa a dizer sobre Whalefall, ou A Queda da Baleia em Portugal, é que a premissa parece saída de um filme B: um homem é engolido por uma baleia e tem de descobrir como sair. O filme adapta o romance de Daniel Kraus, que se inspirou em casos reais de pessoas apanhadas na boca de baleias, como o do mergulhador Michael Packard, em 2021, que passou cerca de 30 segundos dentro da boca de uma baleia-corcunda antes de ser cuspido. Nunca foram engolidos, claro, e é aí que entra a ficção.

Jay Gardiner (Austin Abrams) mergulha para tentar encontrar e recuperar alguns dos restos mortais do pai, que, doente com um cancro do pulmão, tirou a própria vida ao atirar-se ao mar. É a sua forma de arranjar alguma conclusão. Só que o mergulho corre mal, Jay acaba no meio de uma perseguição de uma baleia a uma lula gigante, e agarrado pelos tentáculos, acaba por ser engolido acidentalmente pela baleia. A partir daí o filme concentra-se numa pergunta simples: como é que se sai dali?

Como thriller, funciona muito bem. Se tens talassofobia, medo do mar profundo, ou claustrofobia, prepara-te, porque o filme mexe com as duas ao mesmo tempo. Senti o coração acelerado durante boa parte da sessão. É uma montanha-russa de emoções, que alterna entre o desespero, a esperança e a vontade de gritar para o ecrã, e que nos prende do princípio ao fim.

Mas Whalefall não é só um filme de sobrevivência. Por baixo da aventura há uma relação tóxica entre pai e filho. O pai foi sempre duro na educação do Jay e, com o tempo, a relação azedou. Jay passou a vida a querer provar-lhe que não era fraco, e esse peso acompanha-o até dentro da baleia. A luta pela sobrevivência torna-se também um ajuste de contas com o pai, e é isso que dá ao filme mais do que um simples susto.

Austin Abrams e Josh Brolin, que interpreta o pai, fazem um excelente trabalho a retratar essa dinâmica disfuncional. Abrams carrega o filme quase sozinho, num cenário onde há pouco espaço para se esconder, e Brolin dá ao pai a dureza e a fragilidade certas para percebermos porque é que o Jay nunca se livrou dele.

O filme também tem o mérito de não exagerar. Podia ter tornado ser engolido por uma baleia numa coisa completamente inverosímil, mas tenta manter alguma lógica e credibilidade, o que ajuda a ficarmos agarrados à situação. Não digo que seja realista, mas não nos tenta enganar.

Onde o filme tropeça é no último ato, que me pareceu um pouco longo demais. Esta parte é quase uma alucinação, com o Jay a tratar a baleia como se fosse o pai. A ideia faz sentido e fecha bem o paralelismo com a relação dos dois, mas arrasta-se mais do que devia e tira alguma tensão ao que vinha de trás.