Assassin’s Creed Black Flag Resynced (análise) | A melhor e a pior Ubisoft no mesmo jogo
- por Pedro Gomes
- 23 de julho, 2026
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Após uma reestruturação interna que levou ao cancelamento de vários projetos, incluindo títulos que estavam quase completos, a aquisição parcial por parte da Tencent e decisões estranhas como o fecho e posterior reabertura do estúdio Ubisoft Montpellier, responsável por Prince of Persia: The Lost Crown, é visível o nível de tumulto presente numa empresa que procura regressar a um maior nível de lucro e às vitórias conquistadas junto dos jogadores. Acrescido a tudo isto está também o curioso facto de que um dos jogos mais aclamados de sempre na história da indústria, Clair Obscur: Expedition 33, tenha nascido graças às talentosas mãos de desenvolvedores que traziam bagagem prévia da marca francesa.
À procura dessa vitória junto dos jogadores, uma das melhores e mais seguras apostas é vasculhar o velho baú de títulos icónicos e modernizar a sua experiência para alcançar os patamares atuais, pelo que um remake de um dos mais acarinhados jogos da série Assassin's Creed foi a escolha óbvia do rumo a seguir. Black Flag Resynced chega então às mãos dos jogadores 13 anos após o lançamento original, aproveitando o excelente conceito existente de uma jornada pirata pelos altos mares, refinando outros aspetos e reconstruindo tudo o resto do zero, nomeadamente o seu sistema de combate e os seus gráficos, que procuram alcançar um nível de imersão adicional graças ao Anvil Engine.
Para mim, como alguém que acompanha a série Assassin's Creed desde a sua transição para um maior foco em elementos de RPG, esta foi a primeira vez que joguei Black Flag, pelo que vou dar uma opinião menos comparativa em relação ao original e basear-me na minha experiência com Resynced, apesar de ter uma noção básica de algumas das maiores alterações efetuadas neste remake. Será esta uma correção de rota ajustada por parte da Ubisoft, ou apenas mais um buraco na reputação da franquia?
Versão testada: PS5
Também disponível para: PC, Xbox Series X | S
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Uma história a dois ritmos
Em Black Flag Resynced voltamos a representar o papel de Edward Conway, um pirata galês que, após um encontro fatídico, se vê envolvido na eterna guerra entre Assassinos e Templários. A bordo da nossa embarcação, o Jackdaw, Edward irá encontrar vários parceiros e alvos a abater, enquanto concilia a sua vida como pirata — à procura de enormes riquezas — com a de assassino com objetivos importantes a cumprir. Para garantir a liberdade de todos num mundo que procura enclausurar a sociedade com regras apertadas e vigilância constante, a busca pelo mítico Observatório demarca o objetivo final da nossa jornada, ainda que a sua localização seja um verdadeiro mistério que só o Sage parece poder revelar.
O enredo oferece momentos fortes para o seu elenco expansivo — como Blackbeard e James Kidd — e também para o seu protagonista. Contudo, a estrutura de mundo aberto com diversas distrações acabou por me desligar ligeiramente do que se estava a passar na missão principal, até que me voltei a focar nela. Ainda assim, do que joguei, acho que esta é a história da franquia que mais me cativou desde a jornada de vingança no antigo Egito por parte de Bayek em Origins, sendo Black Flag um claro fruto de outros tempos em que a Ubisoft tinha maior sucesso a criar aventuras apelativas.
Enquanto a narrativa se manteve praticamente inalterada, existe conteúdo adicionado numa tentativa de expandir a história e o mundo em geral; e é aqui que começa a notar-se uma certa dissonância. Além de algumas personagens existentes apresentarem diferenças nas vozes entre o conteúdo original e o adicional, a própria qualidade da escrita é suficientemente distinta para se destacar em alguns momentos, ficando uns furos abaixo. Apesar disso, Black Flag Resynced é uma jornada que vale bem a pena para os novos capitães do Jackdaw, com algumas surpresas adicionais para quem já tenha manobrado a embarcação no título de 2012, tudo isto realizado com maior valor cinemático.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Combate que deixa um pouco a desejar, mas livre das frustrações do modelo RPG
O combate terrestre é simples e tem algumas peças extra para desbloquear ao longo da jornada principal, mas o sistema no seu geral não evolui o suficiente para sustentar as imensas horas de conteúdo disponível. Cada confronto começa pelos famosos assassinatos furtivos que, em caso de deteção, exigem uma mudança para lutas mais tradicionais com esquivas, deflexões de ataques e habilidades adicionais ao nosso dispor, que servem para criar oportunidades de takedown.
Existem inimigos de longo alcance e outros mais difíceis de derrubar, mas a variedade acaba por ser escassa e a sensação de repetição é inevitável após algumas horas de combate. Os momentos furtivos são melhores, mas também chegam a ser um pouco inconsistentes: há ocasiões em que as tropas britânicas, espanholas ou portuguesas não te veem a assassinar um companheiro a dois palmos delas, ou permitem que caminhes em plena vista sem reagir a tempo, e outras em que te detetam a grande distância, com um nível de alerta muito superior. Os bosses disponíveis também se resumem a inimigos com um pouco mais de HP, em que as esquivas e os parries os tornam fáceis de derrotar, falhando em oferecer obstáculos mais imponentes e momentos mais marcantes.
Livre das mecânicas de RPG e dos níveis tanto para o protagonista como para os diversos equipamentos — que outrora levavam a picos de dificuldade que incentivavam o grind —, aqui encontras um modelo muito mais tradicional de personalizar o teu capitão pirata. As várias peças de armamento têm raridades diferentes e perks adicionais, mas tudo se resume a preferências e, ao contrário do que me acontecia em Odyssey, não tinha de revisitar o inventário a cada 15 minutos para ver se já tinha encontrado um par de pistolas melhor. As várias vestimentas espalhadas pelo mapa passaram assim a ser apenas escolhas cosméticas, não oferecendo stats adicionais nem obrigando a sistemas de transmog ou algo semelhante.
A conjugação dos dois aspetos torna este sistema um pouco preferível em relação às constantes esponjas de dano em Odyssey e Origins e às diversas zonas com níveis recomendados, mas gostava de ter visto algo com maior progressão ao longo do jogo, maior variedade de inimigos e bosses com desafios mais ajustados, de forma a tornar o combate mais satisfatório a longo prazo.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Ação bombástica pelos altos mares
Ambos os sistemas de exploração e de combate naval estão interligados, já que o nosso protagonista vai precisar de um navio para se deslocar e ancorar nos imensos locais por descobrir, mas também de canhões e de uma embarcação competente para desbravar o caminho até lá.
O combate naval é onde reside a maior curva de dificuldade, já que o sistema é diferente: passa por gerir os cooldowns entre o arsenal disponível em cada um dos lados da embarcação, enfrentando ameaças com diferentes graus de perigo. Com cinco categorias de barcos cada vez mais resistentes a percorrer o vasto corpo de água disponível, e fortes com defesas mais ou menos imponentes, vais ter de melhorar o arsenal com recursos que podes encontrar por todo o lado.
Ao ocupar as naves rivais e subjugar as suas tripulações, ou simplesmente afundar os seus barcos, podes recolher recursos e dinheiro que te permitem melhorar o Jackdaw, enquanto os Reales — a moeda de troca — podem ser encontrados em baús escondidos, como recompensa de missões e nos bolsos das tropas rivais que derrubares com estilo.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Um mundo repleto de tesouros
Do lado da exploração, o mapa das Caraíbas tem muito para oferecer, numa fórmula já bem conhecida dos restantes mundos abertos da Ubisoft, ainda que aqui não tenha notado uma saturação excessiva de atividades. Existem imensas ilhas para descobrir com loot associado, missões de combate naval e de assassinatos para encher os cofres, mergulhos em alta profundidade, armazéns para pilhar e muito mais. Tudo isto acaba por ser opcional, mas é uma grande ajuda para descobrir novas vestimentas para Edward, obter recursos para melhorar o Jackdaw e personalizar a embarcação, sem se tornar um aborrecimento desnecessário.
Todo este conteúdo cria um loop natural que se desenrola ao longo das missões principais, colocando imensas distrações nos caminhos até lá e convidando constantemente o jogador a explorar os arredores. Só mais este local por descobrir, mais aquele mapa de tesouro que quero seguir, aquele baú que pode conter umas roupas cheias de estilo... e quando dava por mim, tinha afundado umas boas horas sem dar conta.
"Modernizações" desnecessárias
Uma das piores adições a esta versão de Black Flag é a das microtransações e de um género de battle passes, denominados Projects, que pelo menos não expiram, são gratuitos e podem ser completados sem FOMOs associados. Contudo, um jogo single player não necessita deste tipo de conteúdo, ainda por cima num que já tem um preço elevado de admissão, algo que é repetidamente reforçado nos lançamentos mais recentes do estúdio francês e que recebe, merecidamente, críticas duras por parte dos jogadores, incluindo da minha parte.
Ainda que os itens desbloqueados pelos créditos sejam puramente cosméticos e poucos deles me tenham prendido a atenção, é uma medida desnecessária — seria melhor integrar este conteúdo diretamente pelo mundo fora. Pior ainda é a escolha de bloquear o progresso de dois dos três Projects disponíveis para quem não tenha o AC Shadows, já que o primeiro objetivo de ambos pede ao jogador para investigar um item na aventura prévia da série. É genuinamente incompreensível.

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Visuais soberbos e arrebatadores
A minha parte favorita desta edição de Black Flag é, sem dúvida, os seus visuais. Esta representação da época dourada da pirataria nas Caraíbas é soberba e um verdadeiro prazer de observar do início ao fim. As espessas massas florestais das diversas ilhas, os locais como Havana ou Kingston repletos de vida e os altos mares que interligam tudo isto são lindíssimos, algo intensificado pelos diferentes momentos do dia e pelos fenómenos climáticos, criando tempestades assustadoras e dias de nevoeiro cerrado que adicionam variedade e dinamismo ao mundo. O modo Balanced da PS5 inclui efeitos de ray tracing que permitem reflexões realistas nas poças de chuva e nas extensões de água que preenchem o mapa, adicionando um nível maior de realismo a todo o ambiente. Por norma, os títulos da franquia que joguei têm sido um verdadeiro prazer visual, graças aos seus locais recriados de forma fiel, e este não foge ao padrão. Aliás, considero até que entra na minha lista dos títulos mais agradáveis em termos de grafismos realistas dos últimos anos.
A banda sonora encaixa na perfeição, com boas músicas ambiente e de combate, além das icónicas shanties que foram expandidas, com um nível de qualidade constante que não me permitiu distinguir quais foram adicionadas para este remake e quais as que regressaram do título original, o que é excelente.
Uma experiência por polir
Em termos de estado técnico, Black Flag Resynced oferece uma experiência dentro do expectável para a Ubisoft: é certamente jogável, sem crashes que tenha experienciado, mas não deixa de incluir imensos bugs que assolam o jogador ao longo da jornada. Logo nas primeiras horas, tive uma cinemática em que, após embarcar e tomar conta de um navio inimigo, a celebração e os diálogos decorreram parcialmente debaixo de água, uma cena hilariante de observar, embora claramente não fosse esse o objetivo.

Imagem capturada por Geekinout.pt
Houve também uma ocasião em que fiquei preso dentro de umas rochas, o que me obrigou a regressar a um save anterior; tive imensas tentativas de abrir caixas ou baús que eram canceladas sem motivo aparente; texturas de vestimentas que esbracejavam de forma estranha em cinemáticas e em gameplay; animações de finalizar rivais em que não havia contacto físico com a vítima. O parkour também oferece algumas surpresas que resultaram em quedas desnecessárias, e tive uma ocasião em que um dos fortes inimigos simplesmente não ativou, tornando impossível atacar as suas estruturas e obrigando ao abandono do local.
Por norma tenho jogado os AC mais recentes após receberem várias atualizações de correção, pelo que não posso afirmar com certeza se Resynced está num estado aceitável comparado com o lançamento de outras entradas na franquia. Ainda assim, é dos títulos menos polidos que joguei nos últimos tempos, e as várias imperfeições mencionadas marcam de forma regular a experiência pela negativa — uma "imagem de marca" que se tornou há anos num verdadeiro meme na internet e em que a Ubisoft tem seriamente de redobrar os esforços para melhorar.
Prós:
Visuais incríveis que revolucionam a experiência
Aventura pirata que permanece encantadora e vale a pena acompanhar
Exploração viciante e mundo repleto de tesouros para desenterrar
Combate marítimo divertido e convidativo à pirataria à bruta
O sistema de fenómenos climáticos cria momentos memoráveis nos altos mares
Contras:
Estado técnico a precisar de bastante polimento
Bosses insatisfatórios que não oferecem grande desafio
Conteúdo de história adicional tem momentos menos inspirados que o original
Sistema de combate não sustenta as imensas horas de jogo
Microtransações espalhadas pelos menus e inclusão de battle passes num jogo single player
7/10
Veredicto
Agora modernizado com visuais completamente arrebatadores que dão nova vida à jornada pirata pelas Caraíbas, Black Flag Resynced demonstra que os motivos pelos quais foi tão amado pelos fãs da série (e não só) foram inteiramente merecidos. Com um mundo repleto de segredos para descobrir, uma história e elenco cativantes e um extenso mar por conquistar, este remake não deixou de ser vítima da Ubisoft moderna, que apresenta battle passes e microtransações num jogo single player, uma catrafada de bugs regulares e um sistema de combate que podia ter sido melhor. Apesar de tudo isso, tenho de admitir que gostei imenso das cerca de 40 horas passadas até agora neste título, ainda que as ressalvas mencionadas sejam pontos que impedem esta boa dose de pirataria de suplantar verdadeiramente a versão original.
Pedro Gomes
Um verdadeiro amante de videojogos desde muito cedo e sendo o seu hobby preferido sempre, o Pedro tenta agora, como um adulto irresponsável, arranjar tempo para uma jogatana quando os seus dois demónios peludos favoritos o permitem.
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