Não estava à espera de gostar tanto deste jogo português, desenvolvido pelo estúdio Meia Calça.
Panthalassa mergulha-nos num mundo subaquático na pele de Magalhães (que o jogo rapidamente abrevia para Mag), um submarino de exploração autónoma que sofre uma avaria catastrófica e desperta de novo, renascido num corpo altamente avançado, num mundo que já não reconhece. A partir daqui, cabe-nos a nós descobrir este novo mundo e desvendar os segredos de uma sociedade mecânica que o rodeia.
Sobre Panthalassa:
Estúdio: Meia Calça
Género: Point and Click
Preço: 13,99€
Um mundo entre o físico e o digital
O jogo mexe com temas de inteligência artificial e de agência independente dos humanos. Explora também um lado mais existencialista, sobre qual é o propósito de existir. Sem entrar em grandes detalhes para não estragar a descoberta, a ação decorre muito depois dos humanos terem deixado de existir, algo que só percebemos a meio da aventura e que dá um peso extra a tudo o que vamos encontrando pelo caminho. É um ponto de partida ambicioso para um point and click inspirado nos jogos de aventura dos anos 90 e início dos anos 2000, e Panthalassa não tem medo de o assumir.
A nível visual, Panthalassa aposta em gráficos retro, com uma estética que lembra a era da PS1, mas cheios de estilo e substância. A interface parece confusa ao início, com o jogo a pedir-nos que naveguemos por menus e sistemas que não nos são imediatamente familiares, mas rapidamente nos habituamos a ela. Pelo caminho, vamos descobrindo novas espécies aquáticas e interagindo com personagens excêntricas na procura da verdade sobre este lugar.
Puzzles que nos fazem coçar a cabeça
Os puzzles não são imediatamente óbvios, mas também não chegam a ser terrivelmente difíceis.
O nível de desafio está bem medido, nem tão simples que resolvemos tudo sem pensar, nem tão obscuro que nos deixa perdidos sem pistas. É preciso prestar mesmo atenção a todos os diálogos e pormenores, as pistas estão lá, mas nem sempre saltam à vista à primeira. Há personagens que, se voltarmos a falar com elas, servem de guias e apontam-nos na direção certa, mas o jogo não tem grande hand holding, por isso vale a pena estar atento.
Os diálogos são um dos pontos altos da experiência, e grande parte disso deve-se à química entre Mag e Tetra, as personagens principais. Tetra rapidamente assume o papel de companheiro de Mag no início da aventura, e em qualquer momento, podes clicar na interface do jogo para falar com ele. Na maioria das vezes, tenta ser descontraído e engraçado. As conversas entre os dois conseguem ser sérias e estúpidas na mesma medida, o que ajuda a equilibrar o peso temático do resto da aventura.
Duração e o verdadeiro final
Panthalassa é um jogo compacto, com cerca de 4 horas de duração para chegar ao final. Pode parecer pouco, mas convém levar em conta que custa 13,99€ (se estás com dúvidas, há uma demo para experimentar). Ainda assim, vou sublinhar que há um verdadeiro final para quem quiser ir mais longe, e desbloqueá-lo exige mais tempo de jogo do que essas 4 horas iniciais.
O maior senão da experiência está relacionado com a forma como revemos pistas. Muitas vezes, é preciso voltar fisicamente à biblioteca para estudar e perceber algumas dessas pistas. O jogo até tem fast travel, mas isso não chega a resolver o problema: estas pistas guardadas deviam poder ser consultadas diretamente a partir de um menu, sem sermos obrigados a lá voltar de cada vez. A solução para mim foi tirar fotografias com o smartphone aos documentos e indexes da biblioteca, de forma a poder consultar tudo sem abandonar o puzzle.
Prós:
Premissa original e bem construída;
Diálogos fortes, com boa química entre Mag e Tetra;
Puzzles com um nível de desafio bem calibrado;
Estética retro cheia de estilo e substância;
Um verdadeiro final para quem quiser ir mais fundo.
Contras:
Interface inicialmente confusa
Consultar pistas obriga a voltar fisicamente à biblioteca