O sucesso de Spider-Man foi claramente uma faca de dois gumes para a Insomniac Games. Com apenas três jogos — Marvel's Spider-Man (2018), Spider-Man: Miles Morales (2020) e Marvel's Spider-Man 2 (2023) — ultrapassou 50 milhões de unidades vendidas. Por um lado, isto coloca o estúdio de Burbank numa posição confortável entre os PlayStation Studios e com futuro garantido. Por outro, parece agora condenado aos videojogos de super-heróis e a aplicar a sua fórmula de sucesso a outras propriedades, como é o caso de Marvel's Wolverine.

Para o bem e para o mal, muitos dos elementos que tornaram Spider-Man num sucesso estão presentes neste novo jogo. Há coisas que resultam, outras nem por isso. O problema maior está na estrutura. Spider-Man era um jogo de mundo aberto com grande liberdade e fluidez de movimento. Wolverine é um jogo linear, com câmeramais próxima em vários momentos, para transmitir brutalidade e violência, e também com mais elementos decorativos nos níveis, em espaços mais fechados na maioria das vezes.


  • Versão testada: PS5

  • Data de lançamento: 15/09/2026

  • Estúdio: Insomniac Games

  • Código enviado por PlayStation


A herança de Marvel's Spider-Man

Isto faz com que alguns defeitos, que provavelmente já existiam em Spider-Man mas que estavam escondidos pela natureza do jogo, sejam agora mais evidentes: animações partidas na colisão com arestas, movimento que fica preso mediante a distância a certos objetos, e alguma jogabilidade pesada, que provavelmente resultou da tentativa da Insomniac de transmitir a sensação de que Logan é fisicamente mais pesado e poderoso.

Na transição de um jogo para o outro, parece que o toque de midas de Insomniac Games foi diluído.

São falhas ocasionais que não retiram todo o prazer de jogar Marvel's Wolverine, até porque o jogo acerta em várias outras coisas. O combate animalesco que tanto caracteriza Logan foi capturado na perfeição. Há sangue por todo o lado. Cortamos cabeças, pernas e braços. Perfuramos cabeças e troncos com as garras de Adamantium. Logan fica todo despedaçado, com falta de pedaços de carne, em que vemos o seu esqueleto exposto. E tudo isto com um detalhe gráfico que provavelmente chocará as pessoas mais sensíveis.

Wolverine PS5 gráficos
Imagem capturada por Geekinout.pt

Jogabilidade furiosa, mas com falta de mais opções

Mas se jogaste Spider-Man, vais facilmente reconhecer os vários sistemas. O combate começa simples e limitado, e vai abrindo as possibilidades à medida que progrides no jogo e na árvore de habilidades. Embora não esperasse um Devil May Cry ou Bayonetta em questão de combos, confesso que fiquei negativamente surpreendido pela falta de variedade de combinações entre o quadrado e o triângulo, que são os principais botões de ataque. É certo que tens acesso a várias habilidades através do L2, mas senti falta de mais opções.

Um sistema particular a Wolverine é a fúria. À medida que combate, Logan vai enchendo três barras no canto superior esquerdo, por debaixo da barra de saúde. Quando chega à terceira, fica altamente poderoso e capaz de executar finishers com o R2 e L2. Nestes momentos, o jogo também muda visualmente, ganhando uma tonalidade a preto e branco, com os órgãos dos inimigos a aparecer a laranja e jorros de sangue a vermelho para um efeito dramático.

No entanto, há também uma falha de design no sistema de fúria. Este estado é ativado automaticamente, e não manualmente pelo jogador, o que significa que muitas vezes é ativado no final dos combates — devido à necessidade de encher a barra — e é completamente desperdiçado, quando podia ser aproveitado para a fase seguinte. Percebo a ideia da fúria ser algo cumulativo e descontrolado, mas em termos práticos não beneficia a jogabilidade. Para quem se questionar se há mais armas além das lâminas, podemos, mais adiante, pegar em espadas espetadas no corpo de Logan, e usá-las para executar um finisher nos adversários. Também podemos atirar inimigos de precipícios, caixas elétricas e contra máquinas empilhadoras.

Secções de stealth opcionais

É mais uma herança de Spider-Man, mas em Wolverine as secções de stealth são opcionais, no sentido em que nunca vês um ecrã de Game Over se não fores sorrateiro. Logan pode abater inimigos de pontos altos, esconder-se nas ervas altas e atrás de objetos, ou simplesmente dar um salto enorme e cravar-lhes as lâminas no peito. Em termos de inteligência dos adversários, são pouco inteligentes e quase cegos — uma falha de tantos jogos que apostam em secções de stealth.

Ao longo do jogo também combatemos ao lado de outros mutantes, como Sabretooth e Jean Grey, criando momentos em que abatemos inimigos em conjunto com finishers especiais. O jogo está desenhado para estares sempre a combater nestes momentos, porque se parares uns instantes, vais aperceber-te que na verdade os outros mutantes não provocam dano aos inimigos. Há também inimigos que não saem da sua posição e ficam eternamente à espera que chegues até eles. A imersão é frágil.

O jogador pode personalizar Wolverine não apenas com vários fatos, que vão sendo desbloqueados, mas também com genes. Podes escolher até 10 genes que beneficiam certas formas de jogar. Se fazes muitos parries, podes escolher genes que dão mais bónus quando fazes isso. Ou podes escolher genes que aumentam a fúria mais rapidamente. Ou genes que premiam o stealth.

História que melhora no final, mas falta-lhe ritmo

Demorei 15 horas a terminar Marvel's Wolverine. No entanto, existem vários momentos em que o jogo parece estar a aumentar artificialmente a duração, com momentos mortos e aborrecidos onde temos de fazer coisas que realmente não nos apetece fazer enquanto Wolverine, como encontrar desenhos de uma criança mutante para adivinhar qual a palavra-chave que nos permite entrar no seu quarto. Existem vários destes momentos entre missões, para encher o tempo por assim dizer. Isto acaba por estragar o ritmo do jogo.

A história é original, e apesar de ser baseada nas bandas desenhadas, acaba por se desviar consideravelmente do material de origem. Não quero entrar em spoilers, mas quando jogarem, acho que vão entender. A narrativa começa com a X-Force, a equipa de Logan antes de eventualmente se juntar aos X-Men, numa luta contra Bolivar Trask, que quer acabar com os mutantes. Daqui, parte depois para outros arcos narrativos e que englobam outras personagens. O final, contudo, é altamente previsível, além de haver problemas de lógica na escrita do guião, em que os poderes dos mutantes aumentam ou diminuem conforme a situação, para se moldar à direção do guião.

Marvel's Wolverine New Game Plus
Imagem capturada por Geekinout.pt

Apesar de linearidade dos níveis, há momentos de exploração. Há caixas de materiais, que precisas para fabricar novos fatos, e garrafas de whisky, que Logan tanto adora (e existe um fato exclusivo se encontrares todas). Em quase todos os níveis tens também uma porta de pesadelo, que são desafios. Existem três tipos diferentes: corridas de obstáculos contra o tempo, em que temos de percorrer um nível rapidamente usando as habilidades de travessia de Logan; combate contra o tempo, em que temos de derrotar os adversários no tempo indicado; e desafios de pontuação, onde temos de acumular pontos suficientes para atingir o patamar Adamantium, o mais alto.

Dobragem em português

Joguei Marvel's Wolverine com a dobragem portuguesa na quase totalidade. Troquei algumas vezes para inglês para ver a diferença. No geral, a nota é positiva, mas algumas das vozes menos importantes não encaixam bem com as personagens, e algumas entoações soam a desenho animado. Encontrei também erros de progressão relacionados com a troca de línguas, em que após trocar de idioma o jogo não desencadeava o script necessário para avançar na missão. Tive de reiniciar o checkpoint várias vezes para conseguir desbloquear.